Começou como música, virou conto, voltei, oscilei entre terceira e primeira pessoa e assim ficou:
Lá estava ela
Alguém além dos meus sonhos
Além do meu alcance
Contagiando o mundo com seu encanto
Ao meu lado e ao mesmo tempo
Distante um oceano inteiro de mim
Brihante como um farol atraindo quem ali navegasse
Seria possível realizar a travessia?
Ou eu deveria me conformar apenas com a vista?
Nenhum pensamento se fixava quando ela estava perto
E nessa distração não percebi
Quando alguém passou ao meu lado
Alguém que estava ainda mais distante
E gentilmente a alcançou
Com a facilidade com que se adiciona uma letra
Ele e ela se tornaram dele e dela
O oceano ao meu redor secou
E se tornou um árido deserto de oásis amargos
Como pode tal transformação ter ocorrido?
Fechei os olhos incrédulo e esperançoso
De que o farol teria se apagado quando os abrisse de novo
Mas o encanto permanecia
Tornando a solidão do deserto ainda mais sufocante
A dor e o vazio me trouxeram a força necessária
Para correr em silêncio
Na direção daquele quadro imperfeito
E corrigir a paisagem
Com quem realmente deveria preenchê-la
Me aproximo, encosto
Quase declaro minha guerra
Mas não consigo
Porque de perto eu percebo que é ele
Como nunca pude imaginar que seria
Ele e ela.
E eu, o outro.
Quero hastear minha bandeira em nome do meu brasão
Mas sempre que me aproximo com meus exércitos
Tudo se dispersa
O general fica bobo
O samurai perde a espada
Ele ocupa o posto mais alto
E eu estou caído como um súdito perdido
Que tolice a minha em não perceber seu valor
Bobo fui eu de julgá-lo assim
Porque mesmo sabendo o que ela é para mim
Sua nobreza me estende a mão
Me torturando ao mostrar
Que eu jamais faria o mesmo
Como apartar uma briga comigo mesmo?
Entre o ímpeto de tomá-la pra mim
E a resignação em saber que ele é o melhor pra ela?
O oceano que me cercava agora está dentro de mim
Provoco, encosto, desvio, me aproximo e desisto
Será que algum dia encontrarei águas calmas?
O tempo me ensinou a navegar pela correnteza
E a montar uma guarda velada na costa do meu farol
Observando de longe o brilho do seu sorriso
Até que meu nobre inimigo desferiu um golpe fatal na minha calmaria
"Cuide dela se eu faltar, por favor."
O silêncio de minha resposta foi quase um grito
Os anos abrandaram minhas cóleras
Mas nunca o meu amor
Solidificado em um coração
Que viu a vida passar através dos olhos dela
Das conquistas, comemorações e filhos dela
E dele
Quando ele faltou momentaneamente
Fiz meu papel cumprindo a promessa
Que silenciosamente fiz a ela
E a entreguei de volta, imaculada
Me mantendo o mais perto que pude
Da perfeição dela e da admiração que agora tinha por ele
Após ver todos os seus sonhos sendo realizados por ele
Aproveitei, sem rancor, o brilho que eles traziam para os olhos dela
Olhos que nem as rugas deixaram menos brilhantes
Até que a promessa teve de ser cumprida por completo
E agora o silêncio era dele
"Cuidarei, vá tranquilo"
Ao invés de pensar que agora tudo começaria
Percebi que na verdade não houve espera
Fui feliz junto dela e, confesso, junto dele
Junto dos seus filhos, dos seus netos, das suas festas, dos seus sofrimentos
Zelando para não deixar que nada a impedisse de ser feliz
Guardando para que o farol nunca parasse de brilhar
Até o dia em que a luz se apagou
E ela foi serena ao encontro
Do único que poderia acendê-lo novamente
Como prometi